segunda-feira, 24 de agosto de 2009

O QUE FAZER QUANDO A CRISE NOS APANHA DE SURPRESA

Texto: Gênesis 21.8-21

I. A CRISE MUITAS VEZES É GERADA EM MEIO À CELEBRAÇÃO DA VIDA – v. 8-9

1. O que se vê neste texto é que existe espaço no meio do sagrado para celebrar as coisas mais comuns da vida – Abraão deu um grande banquete no dia em que Isaque foi desmamado.
2. Não há nada mais comum do que crescer e ser desmamado. Mas Abraão celebra o comum. Tem tempo na sua agenda sacrossanta para dar tempo ao filho. Abraão se deleita em cada fase da vida do filho e compartilha com os outros a sua alegria.
3. Abraão não tinha uma agenda do sagrado. Tudo é sagrado. A vida para Abraão era uma liturgia. Abraão fecha a agenda e arranja tempo para celebrar o comum com a família.
4. AGORA vamos ver que existe um fio muito tênue entre o projeto da celebração da vida e o projeto de converter a vida numa coisa má, seca, árida e totalmente violenta na relação com os outros.
5. No meio do grande banquete que Abraão estava dando surgiu uma coisa que não estava agendada, que azedou a festa, que estragou a celebração: “Vendo Sara que o filho de Hagar, a egípcia, o qual era dera à luz a Abraão, caçoava de Isaque, disse a Abraão: Rejeita essa escrava e seu filho; porque o filho dessa escrava não será herdeiro com Isaque, meu filho” (Gn 21:9-10).
6. Quando estava todo mundo se alegrando, Sara flagra Ismael fazendo uma brincadeira com Isaque e naquele mundo seu mundo ruiu. Surge um sentimento de agressão e aversão por Ismael e gesta, a partir daí, um dos momentos mais violentos da história de gente envolvida com o sagrado.
7. Sara ficou cheia de ira, empanturrada de ódio, e se move na direção de ser dura, cáustica. A reação de Sara provoca uma crise seríssima na vida de Hagar e de Ismael.
8. Essa é sua crise, a minha crise, a nossa crise, muitas vezes.

II. A CRISE DE SER REJEITADO – v. 10

1. Primeiro, surge a crise de se sentir descartável diante da vida – v. 10
a) “Rejeita” = Escancara o drama de se sentir uma coisa qualquer, que se usa e joga fora. A rejeição é a forma mais violenta de ferir e agredir uma pessoa. A rejeição dói muito.
• A rejeição desarticula a saúde psicológica. Provoca uma desestabilização psicossomática, joga a pessoa num poço fundo de desvalorização humana.
• Introjeta-se o sentimento de lixo, de monturo existencial, e começa a partir daí o registro do descartável diante da vida.
• Não há nada que fére mais alguém do que ser rejeitado – É o abraço que não pode ser dado; é o toque que não é aceito; é o telefone que é desligado na cara.
• Só se sente desprezado quem já foi prezado. Houve um dia que Hagar serviu para Sara. Seu útero prestou para alguma coisa. Valeu como jardim da vida. Agora ela é jogada fora.
• Exemplos: Jovens que foram usadas e descartas. Jovens que caíram na teia da sedução e depois abortaram o fruto da promessa do amor. Maridos rejeitados. Esposas rejeitadas. Filhos rejeitados. Velhos rejeitados nos asilos. Empregados rejeitados por serem honestos.

2. Segundo, surge a crise de ser tratado como sujeito indefinido da história
a) “Rejeita essa escrava” = Sara omite o nome de Hagar. Para ela Hagar não tem nome, não tem valor. Sara só trabalha com a linguagem do desprezo humano. Ela usa “Essa escrava”, “seu filho”; “dessa”. Ela só se dispõe a usar o nome do seu filho. “Porque o filho dessa escrava não será herdeiro com Isaque, meu filho” (v. 10).
• Para Sara só tem valor e importância o seu filho. Os outros que se danem, que passem fome, que morram de sede. Os outros são descartáveis, são lixo e devem ser rejeitados.
• O nome significa a pessoa. Hagar não tinha valor para Sara. Sara tornou-se oportunista. Usa os outros quando precisa e depois coloca numa cesta de lixo. É a linguagem máxima do desvalor e do desprezo.

3. Terceiro, a crise de sentir-se sem direito, sem vez e sem voz – v. 10
a) “Rejeita essa escrava” = Hagar não tem direito de ter direito. Seus sonhos são amputados, seus projetos bombardeados.
• Porque é escrava não pode se manifestar, não pode opinar, não pode falar. Não pode expressar o que sente. Tem que se conformar. Você não tem voz. Não vem vez. Não tem direitos. Só tem o dever de ficar calado, esmagado, rejeitado.

4. Quarto, Sara mostra que a razão amior de sua rejeição absurda e cruel era a ganância financeira – v. 10
a) “Rejeita essa escra e seu filho; porque o filho dessa escrava não será herdeiro com Isaque, meu filho”.
• Toda a questão tem a ver com dinheiro, com bens materiais. Quantas disputas de família por causa de herança, de partilha de bens. Quantas brigas entre marido e mulher, entre pais e filhos, entre irmãos por causa de dinheiro. Quantos casamentos arruinados por causa da ganância.
• Sara vive a doença do possessivismo em tudo. Quando fala de Isaque não usa nosso filho, mas meu filho. Tudo era dela e convergia para ela.

III. A CRISE DE SE SENTIR SEM RUMO NA CAMINHADA – v. 11-14

1. Hagar saiu – v. 14b “Ela saiu...”.
• Hagar sente agora o gemido da ruptura. A morte do passado. Hagar não podia mais ficar ali. Não tinha mais espaço para ela. Por isso saiu.
• Na crise não se vê claro. Fica tudo cinzento. Faz-se um breu psicológico na vida da gente. Dá um curto-circuito na psiquê humana: “Hagar saiu andando errante pelo deserto”.
• Hagar sai na direção de um-lugar-nenhum. Sai na direção de-onde-não-se-chega. Se você não sabe aonde vai, já está perdido antes mesmo de partir.
• Hagar saiu. Cortou as raízes. Rompeu os laços. Não sabe se volta.

2. Hagar saiu andando errante – v. 14b “saiu andando errante”.
• Andar pressupõe um caminhho. Sem um caminho não se pode andar. Sem caminho não há direção. Por isso ela anda errante. Ela está andando na direção do nada. Ela está desgovernada na história. Não sabe se direcionar.

3. Hagar saiu andando errante pelo deserto – v. 14b “saiu andando errante pelo deserto de Berseba”.
• O deserto é perigoso. O deserto é seco, árido, ameaçador. É prenúncio de morte. Andar com um menino no deserto é algo que traz medo e grande aflição.

IV. A CRISE DE ESPERAR O QUE SÓ FAZ DESESPERAR – v. 15-16

1. Em primeiro lugar, o esgotamento dos recursos humanos diante da necessidade imediata pela permanência da vida – v.15
• Enquanto existia água, existia a luta pela sobrevivência da vida. Água significa resistência ao caos. No deserto a água é a maior riqueza. Quando acaba a água, acaba a esperança. Sem água não se caminha pelo deserto. Sem água não se chega a lugar nenhum.
• Hagar chegou ao fim do túnel, ao fundo do poço. Todos os recursos esgotaram-se. Surge o cansaço da caminhada. Já não consegue ficar de pé. Os passos estão trôpegos. Ismael já está desidratado, desmaiando de sede. O sol é implacável. As areias esbraseantes férem seus pés. O cenário é de desespero. Ela só espera o fim, a morte.
• Hagar arrasta o filho e o coloca debaixo de um arbusto. Faz daquele lugar sua UTI. Coloca Ismael no leito da morte e se afasta. E pela primeira vez ela fala.
• Mas sua fala é negativa. É pessimista: “Assim, não verei morrer o menino...” (v. 16). O Não é a sonegação de todo sonho. Ela verbaliza um futuro carimbado de desesperança.
• Ela revela sua fragilidade. Ela chora. O choro é o discurso silencioso da fragilidade, da crise que nos pegou para valer. Hagar perdeu tudo: o lar, o abrigo, o nome, o direito, a liberdade, o pão, a água, o teto, o sentido da vida, agora o filho.

2. Em segundo lugar, Hagar experimenta a crise de esperar o que só faz desesperar, porque não consegue enxergar Deus naquela situação – v. 17
• “Deus, porém, ouviu a voz do menino; e o Anjo de Deus chamou do céu a Hagar e lhe disse: Que tens Hagar? Não temas, porque Deus ouviu a voz do menino, daí onde está”.
• Hagar chora, mas não ora. Quem olha para a vida como se fosse tragada pela morte não ora, mas só chora. Chorar sem orar é a configuração do mais alto pessimismo humano.
• Hagar não trabalhou para a reversão da situação orando (Exemplo: Pedro na prisão).

V. A CRISE COMO UM PROJETO LIBERTADOR DE DEUS NA VIDA – v. 17-21

• A crise é uma encruzilhada: um tempo de oportunidade, de purificação, de experiência com Deus.
• Os grandes homens são formados na urdidura da crise: José, Davi, Daniel, Jeremias, Paulo, Jesus.
• Deus agenda um encontro conosco na crise: Não podemos gerenciar as desordens da nossa própria vida. Na crise Deus pode nos levantar um novo relacionamento com ele: Salmos 116:1-4.
• Vejamos quatro gestos de Deus na crise de Hagar que mudaram sua vida:

1. Deus afasta de nós o sentimento de desprezo e de rejeição – v. 17 – “... Que tens Hagar?”
• Durante toda a caminhada pelo deserto Hagar sentira-se ninguém, sem nome, sem identidade, sem direitos, sem voz. Era apenas “essa escrava”. Era só uma coisa, uma matéria descartável.
• De repente, tudo se inverte. Existe um ALGUÉM que sabe que Hagar não é uma NINGUÉM. Deus sasber o valor de Hagar. Deus se importa com Hagar. Deus tem um arquivo vivo de Hagar.
• Deus pronuncia seu nome. Para Deus Hagar tem nome, valor. Para Deus Hagar faz diferença.
• “Que tens Hagar?” = Hagar que ficara calada até agora, sufocada, sem vez, sem voz; agora pode falar, pode desabafar. Deus quer ouvi-la. Isso é terapia divina. Ela recebe a cura da “escravização do silêncio imposto”: “O que tens?” é a carta de alforria que ela tanto precisava.
• O nome de Hagar é pronunciado do céu, num contexto de milagre = Deus mostrou que Hagar é importante para a História. É o Senhor do Universo que dá valor a ela. Para Deus Hagar tem nome, tem cor, tem voz, tem vez! Você não precisa se sentir esse, essa. Você tem valor para Deus!

2. A crise torna-se degrau da vitória porque Deus encontra conosco exatamente onde a história parecia ter chegado ao fim – v. 17,18 “Deus, porém, ouviu...”.
• O Porém faz total dirença em tudo que está acontecendo. Significa mudança radical no rumo de tudo.
• Deus intervém no caos, na crise. Este “porém”, indica que Deus chegou na crise, que acaba de tocar a campainha, acaba de bater na porta do nosso caos e que está chegando para reverter o precesso da morte em vida. Como?
a) Mudança posicional de Hagar – Ergue-te – É preciso reagir diante do caos. Sair da posição de pessimismo e derrota.
b) Mudança de atitude em relação ao filho – Levanta o rapaz – Lute pelo seu filho. Não o entregue à morte. Salva o seu filho.
c) Mudança de atitude em relação ao futuro – Farei dele uma grande nação – Hagar olhou para o futuro do seu filho e viu o fim imediato: a morte. Deus olhou para o seu filho e viu uma grande nação! Deus pode também mudar o seu futuro. Mesmo que você já tenha decretado falência, Deus pode fazer grandes milagres na sua vida.

3. Deus muda tudo na crise porque providencia escapes milagrosos para quem está falido de recurss – v. 19
• Deus abriu um poço no deserto. Ele converte terra seca em manancial. Ele é o Jeová-Jiré: ele abre o mar vermelho, tira água da rocha, com um toque derruba as muralhas de Jericó, abre os olhos ao cego, cura quem está com o pé na cova, faz com que a estéril seja alegre mãe de filhos, transforma dilúvios em arco-íris, vales em mananciais.

4. Olhe para a crise com os olhos de Deus – v. 12,13
• A nossa crise não apanha a Deus de surpresa. Ele conhece o fim desde o começo.
• Pode ser que as coisas pareçam de ponta cabeça diante de nós: o casamento, o trabalho, a saúde, as finanças, a situação dos filhos. Mas Deus transforma o mal em bem porque ele dirige o nosso destino.
• O Deus de Hagar sempre chega na hora H.

Nenhum comentário: